Sonntag, 23. April 2006

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Há dias tento escrever, mas algo vem e dá errado. O pc tá desligando sozinho toda hora, e, por não ter o hábito de fazer um rascunho no Word, perco tudo. Não é nada importante, por que me desgastar então?

A cada dia preciso mais de alguém pra conversar, mas as pessoas parecem progressivamente menos confiáveis. Esse mundo está me irritando em todas as suas dimensões alcançáveis, e já não há mais fuga satisfatória.

Fiquei um pouco triste nesses últimos dois dias, particularmente nessa manhã. Estou sem jeito de escrever o por quê; a princípio até achei melhor deixar exposto, só que já mudei de opinião.

Talvez essa tenha sido a variação mais marcante em mim após envelhecer. A dificuldade em lidar com objetos perdidos dentro de casa, com a desconsideração pela individualidade alheia, com todos os meus defeitos... Isso nunca mudou e nunca vai mudar. Se aprendi algo, foi a me calar. Ao ouvir opiniões irrefletidas e explicações inconseqüentes, ao confiar incondicionalmente e ser abandonado quando mais precisava, o silêncio tem sido a melhor resposta. Às vezes grito de revolta, a ponto de ser ouvido até na rua. Posso ser mais discreto, e fazer um comentário sarcástico. Ou posso cair na cama e começar a chorar, sem ninguém ver, sem poder consolar.

Queria começar minha vida de novo. Mudar de país e de identidade, deixando tudo pra trás, sem jamais dar e receber notícias. Pudera eu ter mais forças para perseguir a concretização dessa idéia tola, menos um sonho que uma alternativa ao suicídio. Seria pobre, tão pobre como serei se ficar aqui. Mas ao menos não seria a depressão a causa da minha pobreza. Hoje não consegui fazer nada; passei o dia inteiro na cama, incapaz de me concentrar em qualquer leitura.

Às vezes fazemos vista grossa a experiências passadas, ignoramos até as conclusões mais concretas sobre as pessoas. Mesmo desapontado com alguém, subverto a lógica da personalidade, ao evitar descarregar sobre o ambiente a reprovação por instabilidades na relação dele com o sistema psíquico. Perdoo, convencendo-me da ausência de motivos para mágoas, e seria popular demais continuar o raciocínio da oração anterior...

A desconfiança é inevitável após certas freqüência e intensidade de abalos, no entanto. Sem culpar; apenas não está dando certo, mais uma vez. Preciso de um tempo sozinho, longe dela e de todas as pessoas. Se eu pensasse melhor em como lidar com todos, se eu lhes desse menos valor do que pretenderiam e mereceriam ter para mim, não estaria assim agora.

Está horrível escrever; voltei a ler uma coleção de literatura estrangeira traduzida pra ver se meu português melhora. Espero não ser tarde pra isso também.

Ninguém se preocupa, mas eu também não preciso me preocupar muito comigo mesmo. Alguns dias ou semanas no gelo e vou estar melhor. Seqüelas ficam, é verdade. Nesse caso, sob a forma de um acostumar com o descaso alheio...

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